quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O tropeço (A fantástica crônica sobre o amor)

Estávamos no quarto período de Jornalismo quando brotou um show do Nando Reis para nós irmos. Na verdade, o Nando será eternamente o precursor da nossa história. Eu era apaixonada por você desde o momento em que você me disse que a sua música favorita era "Luz dos Olhos", em um dos primeiros dias de aula na faculdade. Coincidência ou não, o nosso primeiro encontro seria um show do cara. Não costumo acreditar em sorte, mas não poderia estar mais agradecida pela oportunidade ímpar.

Todo mundo sabia. Sim, todo mundo via os meus olhos brilhantes quando eu conversava com você ou o modo como eu me arrepiava a cada abraço ingênuo seu. É difícil acreditar que, a única pessoa desse mundo que não enxergava o quanto eu estava a fim, era você mesmo. Tudo bem, eu poderia ter te contado, mas gosto da harmonia que faz com que os planetas do Universo girem sem se esbarrar. Eu gosto do natural.

Contei para minha mãe sobre o pseudo-encontro e ela vibrou positivamente e logo contou para o meu pai. Ele disse para mim que estava na hora de voltar a namorar e já afirmou o quanto gostava de você. Tem noção? Meu pai te adorava. Como se não bastasse todas as minhas amigas me dizendo dia após dia o quanto você era perfeito para mim, você já tinha aprovação dos meus pais. Só faltava, enfim, nós dois juntos. E esse talvez fosse o problema.

Me arrumei 3 horas antes de sair de casa. Mexi no meu cabelo tantas vezes procurando um caimento perfeito que acabei deixando-o oleoso. Resolvi entrar no chuveiro novamente e caprichei melhor no banho, com direito a esfoliante, óleo e hidratante. Depois percebi que de tanta arrumação, ia acabar perdendo tempo, e decidi me aprontar de vez. Agora só faltava você aparecer para me buscar de carro. E como o tempo passa devagar quando se está ansiosa...

Você finalmente ligou e disse que queria subir para falar direito comigo. Gelei. Sério, o que isso pode significar para uma pessoa que está muito apaixonada? Tentei manter a calma, como eu havia mantendo durante os últimos dois anos, mas foi bastante difícil ao que me recordo. Abri a porta devagar e sorridente, e ao deixar você entrar, lembro-me de perguntar se não gostaria de beber alguma coisa... Você negou e puxou a cadeira. Foi então que soltou a bomba:

- Clarice, combinei o show com uma outra pessoa também. Sei que você estava animada para a gente curtir o som juntos, mas acho que preciso da sua aprovação.

Combinar com outra pessoa. Minha aprovação. Ao que essas palavras me sugeriam, entendi que você tinha marcado o show comigo E com uma outra pessoa E você estava interessado nessa outra pessoa. 

Não me recordo de muito dali em diante. Devo ter rido, agradecido pelo voto de confiança, devo ter tratado a menina bem. Devo ter feito um monte de coisas naquela noite em que eu tenho lutado tanto para esquecer. Mas lembro-me bem de algo. Depois do show, enquanto eu voltava para casa, o amor... Ah, o amor! Este tropeçou e ficou pelo caminho.