Querida Margarida,
Ainda não
sei bem como usar esse tal de computador que você vive dizendo que é fácil. Por
isso escrevo um bilhete de aniversário. Muito mais pessoal, com minha letra,
meu cheiro, meu sentimento.
Seu pai,
minha querida, se orgulha muito de você. Não importa o fato de que agora você
esteja fazendo quarenta anos e eu daqui a dois meses esteja fazendo setenta e
dois. Ainda sou o mesmo pai que te viu na maternidade, com aquela carinha de
joelho mais bonita do universo, mexendo as mãozinhas e pezinhos, com os dois
olhinhos fechados.
Eu sei que
agora você deve estar revirando os olhos pensando, "Por favor,
papai!". Mas eu não ligo. Sabe que você faz isso desde a adolescência?
Quando eu peguei o seu diário e descobri que você namorava um tal de Mateus (eu
ainda quero descobrir quem é esse rapaz), você fez a mesma coisa. E ainda disse
que eu era o pior pai do mundo! Eu? Pior pai do mundo? Eu fiquei muito bravo
naquele dia, minha filha, porque os anos em que trabalhei naquele escritório
não foram fáceis, pois eu queria mesmo era estar perto do meu bebê, da minha
filha, da minha princesa. Mas depois eu vi que sim, eu devo ter sido o pior pai
do mundo.
Eu fui o
pior pai do mundo porque te deixei escorregar pelas mãos, querida. Em um
instante você olhava pra mim com esses seus olhos brilhantes e perguntava
baixinho, "Papai, de que sabor será que tem as nuvens do céu?" e no
outro instante eu te vi grávida, casada e trabalhadora. Eu fui o pior pai do
mundo porque não contei tantas histórias quanto queria, porque impliquei com
todos os seus namorados, porque fuxiquei todos os seus diários. Eu fui o pior
pai do mundo quando eu ignorei os seus conselhos sobre o cigarro, quando eu
briguei com a sua mãe sabendo que você chorava ou quando eu desaprovei ideais
que você levava. Eu devo ter sido o pior pai do mundo em termos de ciúmes
excessivos, preocupações desnecessárias, proteção extrema. Mas de uma coisa que
eu tenho certeza, Dida (eu sei que você odeia ser chamada assim, mas não tenho
culpa do seu irmão não ter aprendido a falar "Margarida" quando
pequeno), eu fui o melhor pai do mundo em te amar.
Um dia você
deve entender o sentimento de melancolia em que passo agora em plenos setenta e
um anos. Ou talvez você nunca entenda, eu não sei. Teus filhos ainda são muito
pequenos e acho que ninguém pensa muito nisso agora. Mas deixa eu lhe dar um
conselho, minha filha... Filhos são para a vida, não para a gente. E é uma pena
que eu tenha percebido isso tão tarde. Filhos quando crescem nunca serão as
nossas crianças do giz de cera, do sacolé, da boneca, do carrinho... Eles serão
adultos com vida corrida, que se esquecem das purezas que tinham, das
ingenuidades que traziam...
Enfim, minha
filha, eu não sei por que eu estou escrevendo tanto. Hoje é o seu aniversário e
você sabe que o papai lhe deseja tudo de melhor nessa vida. Conta sempre com o
seu pai, Dida. Ele é um turrão, mas ele te ama.
Você sempre
será a garotinha do papai que saía correndo pra me abraçar quando eu chegava do
trabalho, dizendo, "Pai, hoje o céu tem estrelas! Estrelas,
papai!!!". Não importa os seus cabelos brancos, as rugas já evidentes, o
cansaço físico e mental que a idade já entrega. Você sempre será aquela menina
linda.
Eu não sei o
que está acontecendo com o teu velho, mas eu dei pra chorar agora. Tua mãe deve
colocar alguma coisa na nossa sopa, não é possível!
Um beijo do seu pai.
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