segunda-feira, 18 de março de 2013

Bilhete para Margarida

Querida Margarida,

       Ainda não sei bem como usar esse tal de computador que você vive dizendo que é fácil. Por isso escrevo um bilhete de aniversário. Muito mais pessoal, com minha letra, meu cheiro, meu sentimento.
       Seu pai, minha querida, se orgulha muito de você. Não importa o fato de que agora você esteja fazendo quarenta anos e eu daqui a dois meses esteja fazendo setenta e dois. Ainda sou o mesmo pai que te viu na maternidade, com aquela carinha de joelho mais bonita do universo, mexendo as mãozinhas e pezinhos, com os dois olhinhos fechados.
       Eu sei que agora você deve estar revirando os olhos pensando, "Por favor, papai!". Mas eu não ligo. Sabe que você faz isso desde a adolescência? Quando eu peguei o seu diário e descobri que você namorava um tal de Mateus (eu ainda quero descobrir quem é esse rapaz), você fez a mesma coisa. E ainda disse que eu era o pior pai do mundo! Eu? Pior pai do mundo? Eu fiquei muito bravo naquele dia, minha filha, porque os anos em que trabalhei naquele escritório não foram fáceis, pois eu queria mesmo era estar perto do meu bebê, da minha filha, da minha princesa. Mas depois eu vi que sim, eu devo ter sido o pior pai do mundo.
       Eu fui o pior pai do mundo porque te deixei escorregar pelas mãos, querida. Em um instante você olhava pra mim com esses seus olhos brilhantes e perguntava baixinho, "Papai, de que sabor será que tem as nuvens do céu?" e no outro instante eu te vi grávida, casada e trabalhadora. Eu fui o pior pai do mundo porque não contei tantas histórias quanto queria, porque impliquei com todos os seus namorados, porque fuxiquei todos os seus diários. Eu fui o pior pai do mundo quando eu ignorei os seus conselhos sobre o cigarro, quando eu briguei com a sua mãe sabendo que você chorava ou quando eu desaprovei ideais que você levava. Eu devo ter sido o pior pai do mundo em termos de ciúmes excessivos, preocupações desnecessárias, proteção extrema. Mas de uma coisa que eu tenho certeza, Dida (eu sei que você odeia ser chamada assim, mas não tenho culpa do seu irmão não ter aprendido a falar "Margarida" quando pequeno), eu fui o melhor pai do mundo em te amar.
       Um dia você deve entender o sentimento de melancolia em que passo agora em plenos setenta e um anos. Ou talvez você nunca entenda, eu não sei. Teus filhos ainda são muito pequenos e acho que ninguém pensa muito nisso agora. Mas deixa eu lhe dar um conselho, minha filha... Filhos são para a vida, não para a gente. E é uma pena que eu tenha percebido isso tão tarde. Filhos quando crescem nunca serão as nossas crianças do giz de cera, do sacolé, da boneca, do carrinho... Eles serão adultos com vida corrida, que se esquecem das purezas que tinham, das ingenuidades que traziam...
       Enfim, minha filha, eu não sei por que eu estou escrevendo tanto. Hoje é o seu aniversário e você sabe que o papai lhe deseja tudo de melhor nessa vida. Conta sempre com o seu pai, Dida. Ele é um turrão, mas ele te ama.
       Você sempre será a garotinha do papai que saía correndo pra me abraçar quando eu chegava do trabalho, dizendo, "Pai, hoje o céu tem estrelas! Estrelas, papai!!!". Não importa os seus cabelos brancos, as rugas já evidentes, o cansaço físico e mental que a idade já entrega. Você sempre será aquela menina linda.
       Eu não sei o que está acontecendo com o teu velho, mas eu dei pra chorar agora. Tua mãe deve colocar alguma coisa na nossa sopa, não é possível!

                                                                             Um beijo do seu pai.

Nenhum comentário:

Postar um comentário