segunda-feira, 18 de março de 2013

Filha do Brasil

Negra, com os cabelos encaracolados caindo sobre os ombros. Um sorriso branco, uma arcada dentária certinha, um corpo violão, um samba no sangue, um dengo na alma.


Ela saía cedo pra trabalhar em casa de família. Passava pelos homens nos bares que ainda não tinham ido para a casa depois de uma madrugada com bebidas. Ela sentia os seus olhares, ouvia o falatório, os assobios. Ela sabia como ela era. Nova, bonita... Mas poucos sabiam quem ela era.
                
Chegava à casa da patroa e começava o serviço. Era primeira a louça, depois a roupa, depois cada cômodo daquela casa grande que tinha valor mais alto do que o quíntuplo do seu salário. Ela nunca foi ambiciosa o bastante para querer ser rica como seus patrões. Seu dinheirinho já dava para sustentar ela mesma e de quebra ajudar um bocadinho de sua família.
Ela tinha um noivo, que não era bem noivo. Às vezes ele deixava sua metade loucura aparecer (e mesmo sem admitir, ela amava isso) e dava de cara com ela lá na casa da patroa... A patroa já tinha chamado a atenção dela várias vezes. Mas adiantava? E quando ele aparecia e a patroa não estava em casa, ele entrava para, como ele mesmo dizia, "Brincar um pouco com você, pois tô morrendo de saudades." Ao que ela respondia meio séria, meio risonha, meio com medo, meio boba de paixão, "Você é louco, Rodolfo?". E ele respondia, "Sim, louco por você!".
                
Terminado o serviço ela nunca sabia o que fazer. Podia fofocar com as vizinhas, ir para casa fazer as unhas, ver novela na sua mini televisão, sair para sambar... Mas, havia umas moçoilas encrenqueiras que mexiam com ela quando a mesma saía, e na verdade elas gostavam tanto da pretinha que tinham certa vergonha de admitir. E ela não estava nem aí. Com empecilho, sem empecilho, tanto faz, ela vivia a vida dela como tinha de ser.
Muitas vezes os homens chamavam a nega pra dançar. E ela dançava! Como dançava bem! A ponto de aparecerem mulheres dos fundos dos bares, não tão sóbrias, se dizendo companheiras dos homens que ela bailava com tanto fervor.
             - Quem você pensa que é? - Sempre perguntavam.
             - Eu sou filha desse Brasil.

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