Você
está aqui do meu lado cochilando tão lindo! E ver você assim, deitado, de
olhinhos fechados, me lembrou de uma vez quando estávamos no jardim de
infância. A tia Dani (era esse o nome dela?) tinha pedido para todos nós
descansarmos depois do lanche... Eu e você deitamos no colchão e eu fingi
que dormia... Você ficou um tempão acordado, suspeitando do meu fingimento, mas
depois desistiu de me observar e caiu no sono. Foi então que eu abri os olhos e
fiquei vendo você de pertinho. Quer saber de um segredo? Desde então eu te
achava lindo.
Do que me contam, nossas mães já se conheciam quando ainda éramos dois fetos.
Elas costumam dizer que desde daquela época já colocavam pilha para nós
namorarmos, casarmos e termos filhos. Acho que mamães de primeira viagem são
meio bobas e sonhadoras, não acha? Ainda mais as nossas mães, melhores amigas
há tanto tempo. Mas quem diria que elas teriam razão? Foi um imenso privilégio
as duas terem cruzado uma o caminho da outra e terem sonhado tanto! Só assim a
gente teria realizado tudo o que realizamos.
Eu adorava quando a gente assistia sítio do pica-pau amarelo e o
episódio vinha repetido. Você já tinha decorado todas as falas, e eu ainda lá,
bobona, achando o episódio super legal, como se estivesse assistindo pela
primeira vez.
Eu lembro também de quando a puberdade veio. Meninas e meninos
começaram a se entrosar de uma maneira diferente. E a nossa amizade que
costumava ser tão boa, bonita, fruto de companheirismo tão bem cultivado, foi
se tornando diferente também, meio fria, meio distante... Eu fiquei muito
magoada porque parecia que não te conhecia mais. Você cismou que tinha barba
(você não tinha não, tá bem, querido?) e ficava se gabando com as garotas
populares. Aquilo me enchia de raiva e eu não entendia o porquê, só depois eu
descobri que rolava um ciuminho.
E quando teve uma festa de quinze anos de uma amiga nossa e rolava
um boato de que a garota que você gostava mesmo era eu? Eu fiquei toda prosa,
apesar de negar isso e desprezar você com todo prazer, de vingança por ter me
ignorado durante toda a minha pré-adolescência. Mas na verdade naquele dia eu
me arrumei demais, querido. Naquele dia eu pensei que eu deveria estar com
algum sintoma de loucura aguda, por ficar tão pilhada em você. Acontece que
naquela época eu já era sua.
Houve primeiro beijo, segundo beijo, terceiro beijo... Namoramos e
nos amamos como dois jovens que estão se descobrindo, descobrindo a vida. Como
dois jovens que estão na flor da idade, com a cabeça borbulhando de sonhos, de
pensamentos impulsivos, de inexperiências...
Hoje foi um dia muito importante, pois
comemoramos nosso primeiro ano de casados. Eu ainda me lembro de todas as coisas que
passamos, detalhes por detalhes, atuais ou passados. O seu cheiro, seu sorriso
torto, as suas palhaçadas e criancices que eu algumas vezes detestei; as coisas
que você já me disse ou não disse; os olhares trocados, os abraços dados e os
beijos roubados... Eu me lembro de tudo! E eu me sinto feliz quando vou dormir
e tenho a certeza de que no dia seguinte vou ouvir a sua voz rouca dizendo,
"Bom dia!", como você fazia no jardim de infância, ao chegar na sala
da tia Dani. (Continuo sem saber se é esse o nome dela!).
que linda história de amor!
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