terça-feira, 19 de março de 2013

Bodas de papel (Clichê adolescente)

Você está aqui do meu lado cochilando tão lindo! E ver você assim, deitado, de olhinhos fechados, me lembrou de uma vez quando estávamos no jardim de infância. A tia Dani (era esse o nome dela?) tinha pedido para todos nós descansarmos depois do lanche... Eu e você deitamos no colchão e eu fingi que dormia... Você ficou um tempão acordado, suspeitando do meu fingimento, mas depois desistiu de me observar e caiu no sono. Foi então que eu abri os olhos e fiquei vendo você de pertinho. Quer saber de um segredo? Desde então eu te achava lindo.


Do que me contam, nossas mães já se conheciam quando ainda éramos dois fetos. Elas costumam dizer que desde daquela época já colocavam pilha para nós namorarmos, casarmos e termos filhos. Acho que mamães de primeira viagem são meio bobas e sonhadoras, não acha? Ainda mais as nossas mães, melhores amigas há tanto tempo. Mas quem diria que elas teriam razão? Foi um imenso privilégio as duas terem cruzado uma o caminho da outra e terem sonhado tanto! Só assim a gente teria realizado tudo o que realizamos.

            
Eu adorava quando a gente assistia sítio do pica-pau amarelo e o episódio vinha repetido. Você já tinha decorado todas as falas, e eu ainda lá, bobona, achando o episódio super legal, como se estivesse assistindo pela primeira vez.
           
 Eu lembro também de quando a puberdade veio. Meninas e meninos começaram a se entrosar de uma maneira diferente. E a nossa amizade que costumava ser tão boa, bonita, fruto de companheirismo tão bem cultivado, foi se tornando diferente também, meio fria, meio distante... Eu fiquei muito magoada porque parecia que não te conhecia mais. Você cismou que tinha barba (você não tinha não, tá bem, querido?) e ficava se gabando com as garotas populares. Aquilo me enchia de raiva e eu não entendia o porquê, só depois eu descobri que rolava um ciuminho.
            
E quando teve uma festa de quinze anos de uma amiga nossa e rolava um boato de que a garota que você gostava mesmo era eu? Eu fiquei toda prosa, apesar de negar isso e desprezar você com todo prazer, de vingança por ter me ignorado durante toda a minha pré-adolescência. Mas na verdade naquele dia eu me arrumei demais, querido. Naquele dia eu pensei que eu deveria estar com algum sintoma de loucura aguda, por ficar tão pilhada em você. Acontece que naquela época eu já era sua. 
            
Houve primeiro beijo, segundo beijo, terceiro beijo... Namoramos e nos amamos como dois jovens que estão se descobrindo, descobrindo a vida. Como dois jovens que estão na flor da idade, com a cabeça borbulhando de sonhos, de pensamentos impulsivos, de inexperiências...
            
Hoje foi um dia muito importante, pois comemoramos nosso primeiro ano de casados. Eu ainda me lembro de todas as coisas que passamos, detalhes por detalhes, atuais ou passados. O seu cheiro, seu sorriso torto, as suas palhaçadas e criancices que eu algumas vezes detestei; as coisas que você já me disse ou não disse; os olhares trocados, os abraços dados e os beijos roubados... Eu me lembro de tudo! E eu me sinto feliz quando vou dormir e tenho a certeza de que no dia seguinte vou ouvir a sua voz rouca dizendo, "Bom dia!", como você fazia no jardim de infância, ao chegar na sala da tia Dani. (Continuo sem saber se é esse o nome dela!).

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